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17/08/2009 - BUY, BUY, BRAZIL!
REVISTA VIAGEM E TURISMO Nº 8 - AGOSTO 2009

Nunca tantos consumiram por tão pouco nos Estados Unidos. A VT traçou o roteiro perfeito para as melhores barganhas em Miami, Orlando e Nova York. Participação mais do que especial: o turista brasileiro.

O número de brasileiros desembracando nos Estados Unidos cresce sistematicamente desde 2004 – um crescimento médio de 15% ao ano. Em 2008, chegou a 769 mil pessoas. Mas não estamos indo aos EUA – como reza a expressão popular – a passeio. Observando os números mais de perto, dá para ver que o brasileiro tem objetivos claros. Um deles, às vezes o principal, é comprar. De acordo com uma pesquisa do Departamento de Comércio americano, 89% viajam para consumir, ante 43% de interessados em visitar parques temáticos. Chris Heywood, vice-presidente de relações públicas do Bureau de Turismo de Nova York, classifica esse fenômeno como “espantoso”. “Do ano passado para cá, os gastos de vocês subiram 200%”, disse Heywood. “É o aumento mais dramático entre pessoas de qualquer país desde que começamos a pesquisar.” O brasileiro só gasta menos que o japonês nos EUA.


Os americanos cultivam o costume de promover liquidações monumentais na véspera e pouco depois de seus feriados nacionais mais importantes, como o 4 de Julho e o Dia de Ação de Graças. Juntem-se a isso a crise, o mercado doméstico em queda e o real forte e estável e pronto: nunca foi tão fácil comprar no país do dólar. “Uma característica marcante nas pessoas prósperas em países emergentes é o desejo de se diferenciar”, afirma o sociólogo Alberto Almeida, autor do livro A Cabeça do Brasileiro e diretor do Instituto de Análise. “As pessoas veem nas marcas sofisticadas uma chance de elevar seu status social.” Esta reportagem da VT contou com dicas preciosas dos maiores especialistas em compras: os próprios turistas brasileiros. Nossa equipe esteve em Miami, Orlando e Nova York – os lugares aonde os cartões de crédito vão para morrer – e comprovou de perto esse comportamento. “Trouxe de tudo: luvas de forno, cortador de queijo, espátulas de inox e silicone, picador de cebola” dizia a gerente de uma multinacional Priscila Rosa, feliz da vida por ter descolado uma máquina de fazer waffle por 19 dólares (o equivalente a 40 reais). “Custa 300 reais no Brasil.” Qualidade, custo/benefício, oportunidade, a sensação de fazer um negócio da China…Muitos são os argumentos para quem desembolsou seus suados dólares – ou nem tão suados assim, eventualmente.


Não fazemos apologia do consumismo desenfreado e doentio, de gente que precisa passar por um rehab antes de levar a família à bancarrota. “Algumas pessoas ficam com uma sensação de vazio quando sabem que perderam uma liquidação”, diz a psicanalista Marcia Tolotti, autora do livro As Armadilhas  do Consumo. Comprar é uma experiência vivida por todo viajante. Ela pode ser saudável e plena no sentido humano (e financeiro, claro).


Os novos templos do consumo nos EUA não são mais os shopping centers. São os outlets, como o Premium Outlet de Orlando ou o Woodburry Common de Nova York. Geralmente afastados dos centros urbanos, eles surgiram nos anos 1960 para desovar produtos defeituosos.  Em pouco tempo o sucesso fez com que também produtos perfeitos, porém encalhados, fossem vendidos ali. Isso definiu os parâmetros atuais dos outlets: depósitos de itens com pequenos defeitos e mercadorias que já passaram até 12 meses em cabides de lojas tradicionais, remarcados com descontos de no mínimo 30% e podendo chegar a 90%.


“Já vi brasileiros que deixaram de ir à Disney para comprar em outlets”, diz Mário César, guia de turismo em Orlando há 27 anos. Alguns turistas não se queixam de passar o dia  inteiro garimpando pilhas de roupas e sapatos  remexidos na esperança de encontrar A Pechincha Esquecida. Um dos slogans da rede de lojas de departamentos Century 21 é “moda pela qual vale a pena brigar”. Não no sentido literal, claro, (embora não seja difícil ver duas mulheres puxando as pontas opostas da última blusa M de uma pilha). “Comprar também pode ser uma terapia”, afirma a gerente de produto Daniele Andreazzi, que faz até bazares com as roupas que traz de Nova York. Como resumiu a heroína dos livros da inglesa Sophie Kinsella, levada ao cinema no longa Os Delírios de Consumo de Becky Bloom : “Sabe aquilo que rola quando você vê um cara gatinho e ele sorri de volta, e seu coração se derrete como manteiga? Bem, é isso que eu sinto quando vejo uma loja. Só que é melhor”.

REVISTA VIAGEM E TURISMO Nº 8 - AGOSTO 2009

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