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17/08/2009 - COMPRAR É PSICOLÓGICO
REVISTA VERO Nº 115 – JULHO 2009

A psicanalista Márcia Tolotti  fala sobre as ciladas do consumo em excesso e por que gastamos sem pensar

 

Você já teve a sensação de comprar alguma coisa e depois não achar utilidade para a novidade? De gastar horrores e ficar messes devendo? Essa situação é mais comum do que imaginamos. Problema que a psicanalista Márcia Tolotti conhece bem. Ela é autora, entre outros, do livro As Armadilhas do Consumo (coleção Expo Money, Editora Campus Elseiver), no qual identifica as causas economicas e psicológica do consumo em excesso e doindividamento financeiro. Tema tão vasto e complexo que suscitou novas reflexões por parte da especialista. Tanto que em agosto próximo ela voltará a carga com o lançamento de O desafio da independência: financeira e afetiva, este muito mais voltado a educação e gestão financeira em si.

Em entrevista a Vero, Márcia fala sobre as diferenças entre consumo e consumismo,como controlar os impulsos de compra (principalmentepara os filhos), a crise econômica mundial e o consumo saudável.

 

Vero – Como definir a diferença entre  consumo e consumismo?

Márcia Tolotti – O consumo eum processo que é prazeroso, faz parte da vida. A pessoa vai comprar, mas antes se programa, planeja.Já consumismo é outro processo, que acaba trazendo alguns ganhos secundários,mas não deixa de ser  consequência  de um desequilíbrio.Por que tudo que é feito em excessivo é nocivo.Quando associo a minha satisfação a algo  que preciso adquirir,isso merece uma reflexão.Pode-se perder a noção  do que é necessário e do que não é, do que é felicidade e do que não é.

 

Vero – Quais são as principais causas psicológicas do consumismo?

Tolotti – Baixa autoestima, inveja, necessidade de status,busca por reconhecimento,preocupação excessiva com o olhar do outro, uma necessidade muito grandede aceitação,culpa. A culpa é uma moeda caríssima,principalmente para os pais. A culpa é uma desculpa por ter trabalhado muito e ficado ausente.Também existem as “armadilhas”,como parcelamento decompras, muito comum entre as classes C e média. Parcelar é chegar a um nível, a um patamar que você na verdade não está.E isso é muito comum a pessoa não só compra parcelado,como também pensa parcelado.Fora que o ser humano é um eterno insatisfeito. E o carro perfeito, a casa perfeita, a mulher perfeita, o homem perfeito, existem soment6e na nossa fantasia.

 

Vero – É possível identificar um nível exagerado de consumo?

Tolotti – Se a pessoa compra artigos para uso pessoal no mínimo a cada quinze dias, ou com intervalos de menor tempo, é um indicativo. Outro fator são as compras feitas em situações problemáticas:estresse com o trabalho, problemas familiares, angústia ou tristeza. Quantas vezes a compra é impulsionada por alguma questão afetiva? Comprar algo e não usar é outro sinal, assim  como ter calçados sem usar, roupas com etiqueta, livros sem ler. Mas somente se a pessoa soma mais de um indicador é caracterizada consumista. As vezes ela não percebe que está saindo da normalidade.Se tem uma condição financeira mais restrita,o sinal é quando se endivida, quando o crédito écortado ou reduzido.Esse conceito de necessidade, de que“eu preciso”, virou um conceito elástico. As pessoas não conseguem mais estabelecer a medida do que é necessidade e do que é vontade.

 

Vero – Existe cura para o consumismo?

Tolotti – Sim. O primeiro passo é se perceber como consumista. O consumo “tampa” algum problema que a pessoa tem. E se ela se deu conta de que é consumista,que tem esses desvios e fugas na compra e ainda assim não consegue parar com os exageros, ela pode buscar uma análise,uma ajuda especializada.

 

Vero – O que significa e como é o consumo saudável e sustentável?

Tolotti – Trata-se de uma campanha que devo lançar em agosto e estará disponível no meu site (www.moddo.com.br), além de ter site próprio(www.consumosaudavel.com.br). Foi criada para que as pessoas possam ter uma noção maior de sustentabilidade por meio do consumo. Metade da campanha é na internet, com dicas para o consumo saudável,com produtos que já trabalhem a ideia de sustentabilidade. O site terá  empresas, matérias, um livro virtual com essas dicas, alguns jogos de memória, quebra-cabeças para as crianças sempre com a educação financeira como pano de fundo. As escolas poderão se cadastrar no site da campanha e receber orientações, livros e jogos sobre educaçãofinanceira para que os professores possam trabalhar o tema nas escolas.

 

Vero – Por falar em escolas, o consumismo vem crescendo muito entre as crianças. Como evitar que elas se tornem comsumistas na vida adulta?

Tolotti – Os pais têm de explicar para os filhos que possuir tudo o que querem não fará deles pessoas melhores. Se a criança acata a opnião isso já faz dela mais segura. Ela pode insistir para o pai pela vontade, mas compreende e esquece. Agora, se ela insisti e não aceita o que o pai diz, ai será sempre uma criança insegura, porque só se sentirá bem e aceita no grupo na medida em que possui. Vale esses pais pensarem em como desenvolver  a segurança interna da criança, não pelo externoA solução não é dar o videogame, porque amanhã será a moto,o carro, o apartamento. É uma solução muito frágil  decomprar sempre. Os pais têm de trabalhar com a criança para que ela entenda que os amigos gostam dela como pessoa,e não pelo acessórios que ela tem.Senão, quem  passa a ser o acessório é a criança e não o proprio produto.A criança tem de estar em primeiro plano sempre. É preciso mostrar que os filhos são aceitos pelos valores que eles têm e não pelo que eles possuem.

 

Vero – O que podemos dizer do consumidor brasileiro nesse período de crise econômica?

Tolotti -  Infelizmente as pessoas demoram muito tempo para se adaptar a uma nova realidade econômica. A verdadeira inteligência financeira é se adaptar rapidamente a uma nova condição. Tudo que eu contiver agora me dará mais fôlego para passar por um período recessivo e não sofrer tanto. A crise econômica mundial é uma grande oportunidade para que todos possam repensar suas escolhas e atitudes. Mas as pessoas não costumam fazer isso e, ao contrário,passam a se sentir deprimidas porque não podem comprar tanto. Aí voltamos ao início da nossa conversa:quem disse que na medida que eu compro muito eu sou feliz?

 

Vero – Ainda que o consumo não seja sinônimo de felicidade, como justificar a sensação de prazer ao comprar?

Tolotti – Porque a compra é o que efetiva a capacidade que a pessoa tem. É um ato em que a pessoa tem. É um ato em que a pessoa se consolida também pelo processo de participar da sociedade, de ter uma espécie de poder. Aconteceu esse fenômeno muito claro no Brasil quando a classe C teve acesso a abertura do crédito. Foram feitas pesquisas que comprovam que, quando começaram a adquirir determinados bens e serviços, as pessoas passaram a se sentir cidadãs  porque foram efetivamente intrduzidas num processo social.

REVISTA VERO Nº 115 – JULHO 2009

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