
Jornalista especializado em novas tecnologias, Paulo Amaral não poderia prever que o contato precoce com as transformações provocadas pelo surgimento e vertiginoso crescimento da internet pudesse contribuir para conduzi-lo ao cargo de diretor de e-Business da Merck Sharp Dohme, indústria farmacêutica para a América Latina. Aos 38 anos, ele afirma que assumir riscos e experimentar, levando em conta erros e acertos, foi o que permitiu a construção de uma carreira pouco comum, mas com grande retorno profissional e pessoal.
A psicanalista Márcia Tolotti, por sua vez, convivia com o “significante dinheiro” na atuação clínica no início dos anos 1990. O esforço continuado para entender simbolicamente questões presentes no discurso dos pacientes provocou a aproximação com a economia. O perfil profissional mudou rápido em virtude da dedicação ao mercado financeiro e, hoje, mais de 70% do seu tempo de trabalho está focado na consultoria voltada a corporações. A leitura que ela faz da transformação da carreira tem como elemento fundamental a busca incessante pelo conhecimento.
Essas duas histórias trazem um elemento cada vez mais comum no mercado de trabalho: carreiras em transformação. Formato de trajetória profissional que surgiu com mais vigor nos anos 1990, essa perspectiva coloca em cheque a orientação formal que determina a supremacia de um roteiro de vida profissional planejado desde o ingresso na universidade.
O professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP) Joel Dutra, especialista em carreira, costuma citar o filósofo Heráclito, quando aborda o tema, para dizer que nada é permanente, a não ser a mudança.
Num contexto de profundas mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais, o modelo de escolha de uma profissão – a continuidade nela até a aposentadoria – dá lugar a uma flexibilidade sem precedentes na gestão da própria trajetória profissional. A evolução do conceito de carreira, segundo renomados especialistas, resultado das transformações tecnológicas e organizacionais do século 20, já é entendida como forma viável e determinante no cenário corporativo pós-moderno.
A tendência, compartilhada por autoridades como o PhD William Bridges, consultor norte-americano de transições no mercado de trabalho, provoca mudanças inclusive na orientação acadêmica. Exemplo disso é o surgimento de disciplinas para “orientação de carreira” nos mais tradicionais cursos de pós-graduação em Administração de Empresas brasileiros, como no caso da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, que, desde 2004, traz na grade curricular uma disciplina obrigatória para o desenvolvimento de habilidades pessoais.
Cultura de superação
Para o diretor do Grupo Foco, Pedro Dinkhuysen, a sociedade está, sim, preparada para esse novo modelo de carreira. Isso se deve, no seu entendimento, não apenas à globalização, mas também à maior disseminação de uma cultura que valoriza a superação. No novo desenho organizacional, em que as situações são cada vez mais fluidas, vale o desafio. “Sem desafio, a pessoa não rende o má-ximo que poderia render”, destaca.
Já a consultora da Cia de Talentos Taís Amaral, responsável pela coordenação de Programas de Trainees, Estágios e MBAs, chama a atenção para o impacto dessa mudança na construção das carreiras entre os jovens. A chamada “geração Y” – ou geração digital –, hoje na faixa entre 18 e 30 anos, observa, está acostumada a mudanças. Segundo ela, a estrutura mental de se formar, construir e seguir uma mesma carreira não faz exatamente parte da cartilha desses experts.
As empresas entendem a disponibilidade dos profissionais para a mudança como uma oxigenação vantajosa. “Hoje, a comodidade não deve existir; o que vai estabelecer a segurança de continuar na empresa é a competência”, analisa. Para a consultora, vale mais o desafio que o risco “e a possibilidade de crescimento que ele traz”.
Da internet à direção estratégica
A renovação foi o fio condutor da carreira de Paulo Amaral. “Sempre tentei aproveitar as oportunidades que surgiram, e a inovação pautou a migração da indústria de mídia para a de internet, depois de software e, recentemente, para o marketing do setor farmacêutico”, relata o executivo da Merck. Segundo ele, os novos empreendimentos sempre demandam testes e tolerância com o erro e “é preciso estar preparado para assumir o erro, aprender e corrigir a rota”.
Para entender o significado da trajetória desse jornalista, é importante lembrar que, no início da carreira, ele atuou como repórter sindical e econômico antes de chegar aos suplementos de informática e às publicações especializadas em tecnologia, como Home PC e Info Exame, da Editora Abril. Em 1997, quando a internet chegava ao Brasil, veio o primeiro convite desafiador. O International Data Group, com sede em Boston (EUA), então uma das maiores companhias mun-diais de mídia voltada para tecnologia, queria a participação de Amaral no desenvolvimento do primeiro website brasileiro. “A reação que eu percebia por todos os lados era uma grande descrença sobre a minha decisão”, conta Paulo, que, na contramão da expectativa alheia, deixou o emprego na editora para inscrever seu nome no primeiro site de tecnologia do País, o IDG Now! Naquela época, lembra, as pessoas ainda questionavam as operações on-line porque tudo era muito novo. “Hoje penso que saber que é possível voltar a um porto seguro é um elemento fundamental para permitir a transição de carreira”, sinaliza.
O salto seguinte, por decisão do jornalista, veio em 1999, quando resolveu participar diretamente da indústria da internet e mudou-se para o Vale do Silício, na Califórnia. Estudava meio período e trabalhava como correspondente. “É preciso levar em conta também a importância da determinação em todo o processo”, assinala. Surgiu, então, nova oportunidade, dessa vez para atuar numa iniciativa da Real Networks, em Seattle. A ideia era começar uma operação dirigida aos sites de entretenimento na América Latina. Aí começou a transformação do jornalista em profissional de negócios.
Depois de cinco anos, ao fim dos quais respondia como gerente de Negócios da Indústria de Mídia da empresa, o “evangelista” da área on-line, como ele se autodenomina numa brincadeira, voltou à companhia anterior e fez a receita saltar de um para dois dígitos. “Olhei para minha carreira e achei que estava na hora de atuar em uma grande multinacional e voltar à América Latina.” O acaso contribuiu com a pretensão e ele ingressou num processo de seleção da Merck para uma posição de e-Business.
“A carreira fez de mim um profissional híbrido, e a formação jornalística me capacitou para a transformação da carreira.” Segundo ele, a capacidade do profissional de comunicação de assimilar o conhecimento e torná-lo tangível é um diferencial que permite maior agilidade no entendimento dos fatos. Hoje, responsável pela estratégia dos canais eletrônicos da farmacêutica, diz que a posição deixou seu caráter tecnológico e se voltou ao marketing. Paulo Amaral avalia que as últimas duas décadas em sua carreira exigiram sacrifícios. “Perdi momentos com a família e fiz negociações que tinham como limite o possível”, afirma o executivo, casado e pai de dois filhos. “Sinto-me realizado e devo muito da minha posição à minha família”, diz, lembrando que depende de cada um definir as relações de qualidade a serem preservadas.
Do divã ao mercado financeiro
Psicanalista por formação, Márcia Tolotti percebeu muito cedo que dinheiro, investimentos e consumo ocupavam um lugar de destaque no atendimento clínico. Da necessidade de entender melhor a demanda dos pacientes, surgiu o interesse e a aproximação pelo mundo financeiro. “Foi mais intenso do que eu esperava e, hoje, a consultoria na área representa 70% da minha atuação profissional”, relata.
Os aspectos psicológico e afetivo do investidor levaram a psicanalista à bolsa de valores e aos mecanismos do mercado financeiro. “Trabalhar no âmbito extensivo, ou seja, atingir um número maior de pessoas foi decisivo para a mudança”, explica Márcia. Atualmente, a visão mais estratégica, construída pela transformação na carreira, faz dela uma profissional solicitada para palestras e cursos em corporações, além da coordenação de programas de educação financeira in company.
“Se não formos estrategistas, perderemos o emprego, o planeta, a vida. O que nos possibilita um olhar mais amplo é considerarmos os outros campos e não apenas aquele do nosso domínio”, sentencia. A dedicação disciplinada a outra área de interesse provocou na carreira da psicanalista um salto.
“A pluralidade de pensamento pode ser uma arma eficaz na superação de crises, na solução dos conflitos e no gerenciamento de preconceitos”, afirma. “As ferramentas ficam mais variadas, a criatividade é mais facilmente explorada e as saídas ficam mais visíveis.”
Márcia assinala que sempre deve ser levado em conta o desafio que a transformação profissional representa, de integrar o conhecimento e encontrar uma lógica compartilhada. Ela chama a atenção para o aspecto nocivo da tentativa de “anular o passado”, observando que isso pode provocar uma dissociação, que ela chama de “esquizofrenia profissional”. Por isso destaca a importância de construir a mudança.
Buscar as competências necessárias, acredita ela, pode ser um ponto fraco transformado em forte nesse processo de transição. Portanto, a busca por conhecimento é uma constante na sua trajetória. Além de psicanalista, Márcia tem mestrado em Letras e Cultura e, atualmente, investe na bolsa de valores e faz MBA em Marketing, como mais uma ferramenta para a educação financeira.