
Psicanalista ensina a construir uma relação saudável com as mil faces da moeda
Nossas decisões monetárias envolvem afetos,poder e felicidade.
Portanto para a terapeuta e consultora de educação financeira Márcia Tolotti, investigá-las é mais do que uma atitude para sair do vermelho – é uma forma de melhorar a vida
A gaúcha Márcia Tolotti creseu numa família que enfrentou dificuldades financeiras, mas soube herdar apenas a esperança e fazer valer, ao longo da vida,uma desenvoltura natural para lidar com finanças. “Sei identificar o sofrimento decorrente da falta de dinheiro e também sei que é possível romper com ele”, diz.
Hoje, aos 43 anos, casada, com um filho de 20 e um enteado de 10, ela ostenta um curriculo singular: além de 15 anos de experiência clínica no seu consultório em Caxias do Sul , é também consultora de edução financeira e autora do livro recém-lançado As Armadilhas do Consumo – Acabe com o Endividamento (Coleção Expo Money, Ed Campus). Essa vocação nasceu demais uma década de trabalho social nas zonas urbanas e rurais, onde presta serviços a redes comunitárias e instituições, além de empresas privadas.atualmente Márcia realiza uma pesquisa que vai mapear, na Região Sul, as causas que levam as pessoas a gastar mais do que podem.”A finalidade é traçar um plano de combate ao endividamento e a pobreza”, diz a especialista. O foco de Márcia – que no ano passado fundou com seu irmão, Elvis Cristiano Tolotti, a empresa de consultoria Moddo Conhecimento Estratégico – é desvendar e divulgar a complexa rede que liga economia e afeto.Leia a entrevista e nunca mais deixe que sua relação com o dinheiro seja qualquer nota.
Claudia Problemas de caixa levam muitos pacientes ao divã?
Márcia Independete de alguém procurar tratamento com essa queixa específica, a relação com o dinheiro está sempre presente,pois dinheiro não é só conta corrente e cartão de crédito. Ele está associado a uma série de questões, como poder, satus, inveja, insatisfação, frustração e felicidade.a mãe que repreende o filho cortando sua mesada está exercendo um poder por meio do dinheiro: o marido que lembra a esposa que ela depende financeiramente dele também.
Claudia Tempo é dinheiro?
Márcia Antes de tudo, tempo é vida! E também uma forma de investimento, assim como afeto. Se uma pessoa investe tempo, amor ou confiança em outra, terá um tipode retorno; se investir ódio ou indiferença, terá outro. Estamos sempre investindo tempo, afeto e /ou dinheiro nas nossas relações cotidianas. Então,quanto maior consciência tivermos disso, melhor saberemos aplicar esses recursos.
Claudia As emoções interferem no gerenciamento das finanças?
Márcia Sim, mas não se trata de deixá-las de lado,pois não é possivel “desligar” a emoção.O que importa é tentar reconhecer qual é o afeto envolvido em cada decisão. Se uma mulher que deseja comprar uma casa maior para analisar o que essa aquisição representa em sua vida,ela poderá adiar, antecipar ou mesmo cancelar a compra.
Claudia No seu livro você diz que podemos avaliar melhor nossas escolhas de consumo comparando-as com nosso tempo de vida.Como fazer essa conta?
Márcia Colocando tudo na ponta do lápis.Vamos supor que o salário médio de uma pessoaseja de 700 reais e ela trabalhe 180 horas por mês. Se resolver comprar marcas de peças famosas, como um celular de 800 reais, um tênis de 400 reais,mais uma calça e um acessório por 350, irá trabalhar em torno de 400 horas apenas para sanar esses gastos.Portanto, são 400 horas de vida que ela vai trabalhar para trocar por essas compras.
Claudia Vale a pena?
Márcia Com esses dados na mão, a própria pessoa terá condições de responder a essa pergunta e checar o que motiva suas escolhas. Estamos tão envolvidos pela “necessidade” de mostrar o que podemos comprar que, quando não fazemos, nos sentimos fracassados. Porém não são as compras que nos avalizam. Essa reflexão impede que sejamos engolidos pelo consumismo.Comprar da prazer, mas endividar-se é ruim para o bolso e para a mente.
Claudia Como construir uma relação saudável com o dinheiro?
Márcia Buscar equilíbrio entre ganhar, gastar e investir é uma boa regra, mas não existe receita que funcione para todos.Um dos sinais de que você se relaciona bem com o dinheiro é a independência. Considero desejável não ser nem tornar-se um peso financeiro para os filhos, genros, irmãos, companheiros etc. No entanto a maneira como cada um conquista isso ao longo da vida vai depender do estilo, dos objetivos, das oportunidades e das decisões financeiras.
Claudia Acha justa a fama de que as mulheres não sabem ganhar, mas adoram esbanjar dinheiro?
Márcia Não. Muitas executam as mesmas funções que os homens e ganham menos do que eles, mas é porque o mundo do trabalho ainda se comporta assim. Porém, boa parte delas tem conseguido autonomia financeira, ganhando e gastando muito bem. Para aquelas que não chegaram lá, vejo pelo menos duas causas:ou o tipo de trabalho que executam não lhes permitem crescimento financeiro ou elas não se autorizam a ganhar dinheiro. Isso é fundamental, mas nem todos sentem que possuem esse direito.
Claudia Por que é tão comum encontrar gente criativa que vive as voltas com pendências financeiras?
Márcia A baixa auto-estima pode ser um fator. Apesar da inteligência e do esforço, as pessoas que nunca superam essa dificuldade podem ter um bloqueio inconsciente e nem percebem que, no íntimo, não acreditam na própria capacidade de conquistar e gerenciar seus ganhos.
Claudia Há relação entre sexo e dinheiro?
Márcia Os dois constituem um tipo de poder e podem virar instrumentos nas relações. Ao longo da história, ambos foram tratados como tabu. Assim como aconteceu com o sexo, falar de dinheiro, ou ganhá-lo,também era considerado feio ou pecado. Isso atrapalhou e ainda atrapalha muita gente.
Claudia Afinal o que compramos? Produtos, símbolos de status, o sentimento de pertencer a um determinado grupo?
Mácia Compramos tudo isso, é pacote fechado!Seria chato se ficassemos analizando os valores embutidos em cada aquisição. Recomendo essa prática para quem está sofrendo porque consome demais ou porque paga juros abusivos ou ainda porque seus problemas financeiros acabam prejudicando outras pessoas.
Claudia Como especialista, sente-se imune ao glamour das compras?
Márcia Não. O conhecimento especializado não funciona como vacina contra nada.Livros e viagens são o meu ponto fraco,por isso estabeleço uma cota para esses gatos.
Claudia Como não se tornar refém da dívidas?
Márcia Esse é um problema que atinge cerca de 30% da população brasileira.Amaniado carnê e das compras a prazo faz parte da cultura de endividamento. Nós, brasileiros, não temos o hábito de calcular o valor total daquilo que compramos, muito menos os juros. Que dirá o juro composto, também chamdo juro sobre juro. Mas se você deixa de quitar uma prestação,terá que pagá-lo.Para calculá-lo, deve-se somar o juro vencido ao capital emprestado. É sobre esse montante que os novos juros vão recair. Ou seja: eles subirão e a divida aumentará.
Claudia Qual seu conbselho para quem vive no vermelho?
Márcia Corte o mal pela raiz. Se não tem dinheiro para comprar, não compre. Evite financiamentos e empréstimos, esqueça o cheque especial e pague integralmente o cartão de crédito, não parcele.
Claudia Como ensinar os filhos a serem consumidores mais críticos?
Márcia Dando o exemplo. Se os pais não tem controle sobre os gastos, não conseguirão ensinar os filhos. O primeiro passo é ensianr a desenvolver um olhar crítico sobre a necessidade e as propagandas – elas não vendem apenas produtos,vendem imagem. É recomendável se questionar se aquela imagem oferecida é realmente o que você deseja.
Claudia Qual é o papel que o dinheiro representa na vida de um casal?
Márcia Ele tem condições de transmitir a sensação de segurança e liberdade e também está ligado as questões de poder e submissão. Quem possui mais pode tentar controlar e dominar quem possui menos.Além disso, cada um de nós tem seu modo de ganha-lo e de gasta-lo. O casal precisa descobrir um meio-termo para que a relação não vire um campo de batalhas em que a arma seja o dinheiro.
Claudia Questão inevitável: Dinheiro traz felicidade?
Márcia Não, esse é o pior mito que existe. É lógico que,se você sabe ser feliz, o dinheiro vai ajudar, mas antes disso você tem que construir, reconhecer e valorizar a felicidade. Ela não vem naturalmente com o dinheiro. Outra idéia perniciosa é acreditar que querer é poder. Não é verdade. Quem almeja prosperidade tem que trabalhar, estudar, criar oportunidades, enfrentar alguns riscos,sair da zona de conforto, manter-se alerta para aproveitar todas as chances de construir riqueza. É ilusão achar que rico não trabalha.
Claudia Na música Sampa, Caetano Veloso fala da “força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Pode nos ajudar a identificar na nossa vida quando o dinheiro funciona como criador e destruidor?
Márcia É simples: olhe ao seu redor e veja como estão as pessoas da sua família que foram atingidas pelo seu dinheiro. Não estou falando de uma felicidade passageira em função de algum presente - verifique se existe uma sensação de bem-estar mais prolongada. Se o efeito do dinheiro for tão suave como ouvir Caetano, certamentenada foi destruído. Porém, se esse efeito for dor,disputa e tensão,é sinal de que sua relação com o dinheiro precisa ser transformada.
Claudia Como você aprendeu a lidar com seu?
Márcia Nasci em uma família com muitas dificuldades financeiras, mas que sempre acreditou na possibilidade de melhoria. A herança que recebi foi a esperança. Por isso me senti a vontade para escrever um livro sobre consumo e endividamento. Sei identificar o sofrimento decorrente da falta de dinheiro,mas também sei que é possível romper com ele e que isto custa esforço. Como diria outro grande poeta cantador, Zeca Baleiro “nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça”.
Claudia Que conselho daria para uma pessoa que está desempregada?
Márcia Em primeiro lugar que lute contra o desânimo e a insegurança. Mesmo aqueles que estão contratados sabem que essa situação pode mudar de emprego, pelo menos do modo como o conhecemos, está diminuindo. Para enfrentar os novos tempos,ha necessidade de se ter uma educação permanente. Então, o segundo conselho é: estudem muito. Peçam livros emprestados, frequentem bibliotecas públicas, assistam a eventos gratuitos. E claro, criem um planejamento financeiro de emergência. Cortem todos os gastos possíveis, não se envergonhem de reduzir o padrão. Não consumam nada além do básico: educação, saúde e moradia. Mudar de estilo de vida em tempos de crise não é fracasso, é inteligencia financeira.
Claudia Que critérios utiliza para investir seu dinheiro?
Márcia Esses parâmetros valem para todos que querem começar a investir. O primeiro passo é investigar qual é o seu perfil de investidor: conservador, moderado ou agressivo?Apartir daí, cada um pode criar uma carteira de investimentos de acordo com essa referência. Além disso,o velho conselho de não “deixar todos os ovos em um único cesto” é prudente. Eu tenho investimentos diversificados (ações, previdência privada, fundos de renda variável) e estou sempre estudando para aprimorá-los. Nós vivemos num mundo organizado em torno de investimentos, então é melhor nos informarmos para saber o que fazer.